• José Anchieta Dantas

Coronavirus: análise da situação brasileira

Essa doença pegou o Brasil em situações política, econômica e de saúde pública dificílimas.


Apresento esses cenários, o da atual situação política no tópico I, mais difícil do que antes; o econômico e de saúde pública, respectivamente, nos tópicos II e III, já bastante frágeis para enfrentar os problemas do dia a dia, antes da doença começar a ser registrada no país. A recuperação da Economia após, sem ajuda externa será praticamente impossível. E no tópico IV apresento medidas indispensáveis para a retomada do desenvolvimento econômico e social pós coronavirus.


Em resumo, essas providências requerem:


a) mudança na atual política econômica do governo, focada apenas na redução do déficit público, impedindo o desenvolvimento amplo: econômico e social;


b) substituição da política de livre mercado irrestrito, por um capitalismo “ repensado" . O livre mercado sem intervenção estatal, já está superado, conforme mostra a História Econômica;


c)indispensável união dos três poderes da República.


Quanto ao socorro internacional, o Banco Mundial está pondo à disposição de países emergentes US$ 160 bilhões de dólares ( Ver tópico IV 11).


A gestão da política econômica é um jogo de xadrez. De um lado o programa de desenvolvimento econômico e social e do outro, os adversários0



: os fatores que impedem esse crescimento. Exemplos: a atual crise do coronavirus e a política econômica atual dirigida apenas para redução do déficit público.


Acionar qualquer variável do modelo de desenvolvimento influi na posição de todas as outras.


Isso evidencia que não se deve visar apenas um objetivo. A atual, por exemplo de reduzir o déficit público. Trava o crescimento.


É necessário observar os efeitos sobre consumo, investimentos, gastos do governo, comércio internacional e até o que está ocorrendo lá fora.


Como no xadrez, qualquer movimento requer atenção quanto à posição das outras peças, assim também é na política econômica. Nenhuma variável é autônoma, há uma forte interdependência entre elas.


Tópico I


Quadro atual da conjuntura política.


1)Entre a população a dicotomia: quem não é a favor do atual governo é esquerdista ou comunista ou apoia a corrupção.

É um olhar apenas para os lados: direito e esquerdo.


2)Atentar somente para os lados, sem fitar a frente corre o risco de tropeçar e cair.


3)Quanto maior o afastamento dos extremos mais opções, muitas positivas, entre ambos.


4)Logo não existe apenas as duas alternativas: a favor ou contra o atual governo.


5)Essa divisão está levando até a opiniões opostas quanto ao combate à propagação da doença : a favor ou não do confinamento social.


6)E até a pedidos de intervenção militar por parcela da população, sob argumento de possíveis atos impróprios de parlamentares, o que ameaça a democracia.


7)No meio das lideranças políticas, uma situação de divórcio total, por parte do Executivo, dos outros dois poderes: legislativo e judiciário.


8)Completa falta de diálogo, tornando impossível a indispensável união de esforços para resolver o gravíssimo problema da pandemia e de outras questões.


Tópico II

1)Indicadores econômicos atuais:


a)Desemprego 11,2% , janeiro de 2020.


b)Renda média, em reais, janeiro de 2020:

-de empregados do setor privado com carteira R$ 2.213,00 ;

-de empregados sem carteira setor privado R$ 1.470,00;

-de trabalhadores domésticos R$ 911,00;

- de conta própria 1.734,00.

( Revista Conjuntura Econômica abril 2020, Emprego e renda).


2)Dívida pública ( Governo Federal, INSS, Governos Estaduais e Municipais) : 76,5% do PIB ( Banco Central do Brasil, Estatísticas fevereiro de 2020 ).


3)Crescimento do PIB ( Produto Interno Bruto ), produção do país, de apenas 1% em 2019.


4)Nível de utilização da capacidade instalada 75,6% ( Revista Conjuntura Econômica abril de 2020, Indicadores industriais).


5)Acrescente-se aos segmentos de baixa renda acima, cerca de 35 milhões de aposentados e pensionistas do INSS ( Google) com ganhos também baixos.


6)Junte-se também os mais de 13 milhões que sobrevivem com Bolsa Família, benefício máximo de R$ 205,00 ( Google).


7)Menos de 25% da população tem cobertura da saúde privada, sendo que cerca de 2/3 desses 25% estão vinculados a contratos de trabalho ( Revista Conjuntura Econômica outubro de 2019, matéria Terapia intensiva).


Tópico III.

Dependência, da saúde pública, de significativa parcela da população brasileira e a incapacidade do SUS, antes mesmo do aparecimento da doença, de satisfazer a demanda.


1)A quantidade de pessoas com baixos níveis de renda evidencia o elevado contingente da população dependente da saúde pública, tópicos II.1 e 5 a 7 ).


2)Esta, representada pelo SUS, 50% consideram o sistema ruim ( Revista Conjuntura Econômica outubro de 2019, Terapia intensiva).


3)Os gastos do Brasil com saúde pública, comparados com cerca de 30 países, o Brasil fica apenas acima do Chipre e Índia ( Revista Conjuntura Econômica abril 2020, Orçamento de Guerra e quarentena fiscal).


4)Dos que gastam mais do que o Brasil, apenas China e EEUU têm população maior.


5)Essa comparação evidencia a atual insuficiência de recursos destinados à saúde.


6)A distância dessa deficiência e o tamanho da população necessitada desse serviço público é bastante significativa.


Tópico IV

Medidas necessárias para a retomada do desenvolvimento econômico, após coronavirus.


1)É claro que serão necessários gastos para enfrentar essa epidemia, o que agravará o déficit público.


2)Passada a doença, será indispensável a reconstrução da Economia.


3)Para essa recomposição, é indispensável :


a) União dos três poderes;


b) mudança na atual política econômica centrada unicamente na cobertura do déficit público, a qual tem mostrado incapacidade de deslanchar a Economia. Retira recursos do consumo e das empresas para cobrir a divida, resultando em um aumento do PIB de apenas 1,1% em 2019. O valor de tal dívida é um número absoluto. O significativo é a capacidade de pagamento expressa pela relação Déficit/PIB. Aumentando a Produção, essa relação melhora;


c) não privatização dos bancos públicos. Estes são necessários para manter assistência a micro e pequenas empresas e à agricultura familiar e a outras atividades não atrativas para a rede privada, evitando o agravamento da desigualdade social;


d) não privatização da saúde pública e da educação, a fim de não deixar ao desamparo as camadas de baixa renda dependente desses serviços. Não têm condições financeiras para serem assistidos pela rede privada. Essa providência ajuda também a diminuir a desigualdade social;


e) não privatização de estatais estratégicas. São necessárias para o poder de controle do Estado;


f) controle estatal do mercado. O livre mercado, tendência da atual política governamental, é incapaz de resolver problemas econômicos e sociais. A História Econômica está repleta de exemplos dessa inaptidão e até mostrando que a ausência de controles pelo Estado tem causado crises econômicas;


g) Investimentos públicos, visando reanimar a atividade econômica a qual vem apresentando sinais de fraqueza há bastante tempo, e, com certeza, estará mais grave após o coronavirus. Já em fevereiro de 2020 o nível de utilização da capacidade instalada registrou o baixo percentual de 75,6% ( Revista Conjuntura Econômica abril de 2020, Indicadores Industriais ). Acredito, que continuará decrescendo após a pandemia, devido ao alto grau de incertezas.


4)Diante das naturais hesitações das empresas para investir, cabe ao Estado tomar a iniciativa de retomar os investimentos.


5)Essa política empreendedora pode ser implementada mediante redução de impostos ou investimentos diretos pelo Governo; via crédito pela rede bancária e até ajuda internacional ( Ver parágrafo 11 adiantei).


6)Quaisquer das alternativas provocará aumento de renda dos proprietários dos fatores de produção (famílias) . Aumentando o consumo e, em consequência, a produção (PIB), melhora a capacidade de pagamento do Estado, Dívida Publica/PIB.


7)Tal melhora é explicada pelo multiplicador de Keynes: o consumidor ( famílias) que tiver acréscimo de renda adquirirá algum bem ou quaisquer serviços. Os fornecedores desses bens e serviços, ao terem renda adicional, por sua vez farão investimentos e o processo se repetirá até se esgotar os efeitos dessas rendas extras. Dessa forma, o acréscimo da produção é proporcionalmente maior do que os gastos com os investimentos iniciais.


8) O aumento da produção se multiplicará, não ficando restrito apenas aos incentivos iniciais, incluindo no processo produtivo o enorme contingente de desempregados ( tópico II.1 a) e a capacidade instalada ociosa ( tópico II.4).


9)É nessa sequência de consumo e investimentos que o PIB crescerá a ponto de a relação Dívida Pública/ PIB decrescer, melhorando a capacidade de pagamento do País.


10)A elevada taxa de câmbio atual será reduzida com a diminuição do receio de investidores, aumentando os atuais baixos índices da Bolsa de Valores.


11)O Banco Mundial está colocando US$ 160 bilhões destinados a ajudar cerca de 100 países que merecem atenção especial para enfrentamento da atual pandemia e a se recuperarem após essa doença global. Destina-se a auxiliar empresas e governos. Estima que o PIB brasileiro recuará 5,3% e o mundial, 3% ( jornal Estado de São Paulo, Foco nos mais vulneráveis e na recuperação, seção editorial econômico, pg. B 2- publicação de 23.4.2020 ).








21 visualizações
Faça parte da nossa lista de emails

© 2019 Todos os direitos reservador. 

  • White Facebook Icon
  • White Twitter Icon